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31 de Janeiro de 2012 - 15:01:47

Geral

Edição nº 870 - Terça-feira

O Brasil de Vargas e os reflexos da Segunda Guerra Mundial para os imigrantes e seus descendentes em Santa Catarina.


 

De 1939 a 1945, o mundo foi abalado pela Segunda Guerra Mundial. Dois grandes grupos de nações se enfrentavam: as potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) e as potências Aliadas (Inglaterra, Estados Unidos e União Soviética). O Brasil de Vargas – presidente no período – foi o único país latinoamericano a participar efetivamente dos combates da Segunda Guerra Mundial enviando, em 1944, 26 mil soldados para lutar na Itália. Além disso, foi o primeiro do chamado cone sul a romper relações diplomáticas e comerciais com o Eixo em janeiro de 1942, e a lhe declarar guerra em agosto do mesmo ano. Inicialmente, Getúlio procurou se manter neutro frente ao conflito, conseguindo assim tirar proveito da situação. Porém, a partir de 1941, o Brasil começou a fazer acordos internacionais para apoiar os Aliados. Mas em troca de seu apoio, o governo Vargas conseguiu arrancar dos Estados Unidos grande parte do financiamento para a construção da Usina de Volta Redonda, e a Companhia Vale do Rio Doce, fundamentais para o processo de industrialização do Brasil, que era uma das principais metas de seu governo. Em troca do posicionamento brasileiro, Vargas permitiu aos Estados Unidos a instalação de bases aéreas em Natal, Recife, Belém e Salvador. A Alemanha, por sua vez, logo reagiu à cooperação do Brasil com os Aliados, e entre fevereiro e agosto de 1942, submarinos alemães torpedearam e afundaram nove navios brasileiros, mobilizando a opinião pública que pressionava o governo para uma revanche. Então, em 31 de agosto de 1942, Getúlio declarou guerra às potências do eixo. “A política externa comandada por Vargas entre 1934 e 1942, quando o Brasil pendeu definitivamente para o lado das democracias liberais, caracterizou-se pela exploração das rivalidades entre americanos e alemães [...]” diz os historiadores Antonio da Costa Farias e Edgar Luiz de Barros em seu livro Getúlio Vargas e Sua Época (2001). Segundo a doutora em História pela Ufsc, Marlene de Fáveri (2004), com a opção do Brasil pelos Aliados e contra o Eixo, em janeiro de 1942, teve início a perseguição aos “imigrantes e descendentes residentes no Brasil, sendo os alemães identifi cados com o nazismo e considerados atuantes na causa de Hitler, em favor da Alemanha”, e da mesma maneira os italianos eram vistos como favoráveis ao fascismo de Mussolini. Nesse contexto, os homens e mulheres que eram identifi cados como “quintas colunas” (traidores da pátria), eram “[...] perseguidos na sua origem étnica e reprimidos nas suas manifestações culturais [...]”, vivenciando enfrentamentos, resistências, medo, apreensão e todo tipo de inseguranças em sua vida quotidiana. O então interventor do estado de Santa Catarina no período, Nereu de Oliveira Ramos, garantiu a perseguição de alemães e italianos no estado. Isso justifica a criação de campos de concentração no estado em Santa Catarina, em Joinville – Hospício Oscar Schneider – e Presídio da Trindade, em Florianópolis, para aprisionar não os judeus e outros que não faziam parte da chamada raça
ariana, mas, “ironicamente, os nazistas, ou alemães – simples imigrantes ou simpatizantes do nazismo – que moravam no Brasil foram perseguidos pelo governo Getúlio Vargas, que contava com um efi ciente aparelho nacionalista” diz o jornalista Leandro Junges, em matéria publicada no jornal A Notícia em 2003. Essa perseguição imposta pelo governo Vargas fez aumentar ainda mais a distância entre os imigrantes, principalmente alemães, e brasileiros. Essa distância, que muitas vezes se tornava real antipatia por estes “estrangeiros”, podia ser explicada pelo isolamento dessas comunidades que se dedicavam à agricultura. A questão religiosa também contribuiu uma vez que, os imigrantes, principalmente alemães, eram de religião luterana, que se opunha às tradições católicas predominantes na época. Durante o Estado Novo, Getúlio criou a Lei de Nacionalização, que acirrou ainda mais a rivalidade entre brasileiros e, alemães e italianos e seus descentes. Com essa lei “alemães e descendentes sofreram diversas formas de repressão, desde seus aparelhos de rádio sendo apreendidos a proibição do uso da língua alemã e igrejas fechadas” diz o então pós graduando em Ciências Humanas pela Unicentro, Guilherme Maier (2006). É interessante notar que nesse período as denúncias eram constantes e partiam da própria população, que denunciavam qualquer um que falasse alemão ou italiano pelas ruas da cidade, gerando assim um relativo conflito entre esses grupos em maior ou menor intensidade. Em todo o País, o governo de Getúlio Vargas perseguiu, prendeu e confinou mais de 3 mil pessoas entre alemães, italianos e japoneses em campos de concentração criados em oito estados do Brasil, afirma o jornalista Leandro S. Junges. Essa perseguição afetou muito a relação, mesmo no fim da Segunda Guerra Mundial, entre brasileiros e imigrantes. “[...] Muitos [imigrantes] começaram a sentir vergonha e medo de serem “alemães”, devido a traumas desta época de guerra, e não queriam mais, por opção própria, falar alemão [...]”, afirma Karen Pupp Spinassé, em seu artigo “Os imigrantes alemães e seus descendentes no Brasil: a língua como o fator identitário e inclusivo” publicado em 2003 ela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A tentativa de nacionalizar o Brasil, feita por Vargas durante o Estado Novo foi interrompida com a Lei de Nacionalização, através da perseguição de imigrantes italianos e principalmente alemães em todo o território nacional, intensifi cada no centro sul do país por concentrar grande número desses estrangeiros e seus descendentes. Assim, Karen afirma também que “[...] a proibição da língua alemã e a discriminação em relação aos colonos os levavam de volta ao isolamento [...]”, ainda perceptível atualmente nas comunidades de origem europeia e não européias em todo o território nacional e em Santa Catarina, que não se faz diferente dessa realidade.


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1 comentário(s).
Ótimo artigo explica a imigração e permanência alemã em Santa Catarina com uma base histórica bem fundada e tem uma análise que tende à neutralidade. Porém seria um artigo radiante se houvesse referência ao resultado dessa repressão brasileira, principalmente no século XXI. No geral, ótimo artigo.
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